A intimidade do casal, Niemeyer e Brasília.
Niemeyer deixou de lado sua vida no Rio de Janeiro para se apresentar para uma nova realidade, a qual posteriormente também mudaria a nossa. A prioridade passou de pessoal para social. Por Marcos Lula.

Niemeyer passou cerca de 3 anos acompanhando a obra da nova capital do Brasil, uma obra “justa e necessária”, palavras do próprio. A construção de Brasília representa experiência de lutas e ensinamentos, não apenas para o arquiteto em questão, mas para todos que trabalhavam na sua construção. O curto prazo para a finalização da nova capital fazia com que os trabalhadores, desde o mais pobre até o mais rico, se unissem em prol de um único bem. Havia um verdadeiro espírito de luta encorajado pelo então presidente do Brasil, Juscelino Kubitscheck, que lutou contra a oposição e os inúmeros obstáculos, tentando trabalhar sempre sem o risco de desfalecimento.
Houve um concurso para a escolha do projeto da capital, apoiado por Niemeyer. No entanto, o arquiteto havia sido convidado anteriormente por seu amigo, Juscelino, para realizar o projeto da nova capital federal, mas não aceitou. Posteriormente veio a contribuir com o projeto de algumas edificações, as quais, aliadas ao projeto de Lucio Costa formaram uma nova figura do Brasil aos olhos do mundo.
Niemeyer resolveu deixar a funcionalidade ditada pelo modernismo um pouco de lado. A prioridade no momento era criar traços que definissem a capital. Ele definiu como critério para as obras unir a nobreza e a simplicidade sem deixar de lado a inovação. Os brasileiros ao chegarem à nova capital iriam se surpreender, emocionar e orgulhar. Trata-se da beleza plástica que transmite uma mensagem poética que domina os seres.
Nos prédios urbanos deveria se preservar a unidade dos conjuntos e se desapegar de elementos formalistas que vinham desvirtuando a arquitetura brasileira. Assim, foram criados critérios para a aprovação dos projetos urbanos da nova capital.
Os trabalhadores depois que mudaram para Brasília conviveram com várias dificuldades, mas uma das maiores era o isolamento em relação a família e amigos. Eles passariam anos trabalhando no novo projeto, e tiveram maus momentos. Entre eles as péssimas notícias que chegavam, como a morte de Walter Garcia Lopes, Bernado Sayão, e não menos importante, o pai de Niemeyer. Mas o espírito de luta e a busca pelo resultado final, que seria engrandecedor para a sua nação, deram força para os que ali trabalhavam e conviviam com condições desanimadoras.
Tomar banho de rio, dormir dentro de carros, passar dias sem ver um rosto diferente, olhar para todos os lados e só enxergar o mais puro e virgem sertão, era assim a realidade dos trabalhadores da nova capital e não foi diferente para Niemeyer. Mas ainda assim, eles conseguiam transformar os obstáculos em aventuras, dando um sabor diferente pra cada situação.
Juscelino preocupado com a situação econômica de Niemeyer, que fechou seu escritório no Rio para se dedicar a Brasília, cedeu para o arquiteto os projetos do Banco do Brasil e o Banco de Desenvolvimento Econômico em Brasília, projetos que o arquiteto não aceitou, pois não havia possibilidade de aliar a nova capital com projetos particulares. Segundo Niemeyer, o então presidente se preocupava com os mínimos detalhes da nova capital e chegou a passar noites pensando nos projeto do novo palácio. Um presidente é sobrecarregado com muitos problemas, mas ao se importar com os detalhes do projeto do palácio, aceitar e até opinar nas soluções criadas pelos arquitetos, prova que Juscelino era diferente, dava importância para a beleza, poesia e espírito. Talvez, podemos afirmar que esse seja um dos maiores motivos que explique a amizade entre Niemeyer e Juscelino. O sucesso dessa união tornou-se popular ao redor do mundo, eram duas cabeças que se completavam, o gênio que criava formas fantásticas por uma grande razão, com o grande administrador que compreendia a importância de torná-las reais.
Muitas vezes não foi possível utilizar os materiais especificados por Niemeyer em seus projetos porque o transporte ainda estava precário, Niemeyer tinha que conseguir soluções rápidas, soluções essas que deveriam ser estudas com calma e provavelmente levariam meses se houvesse um bom prazo, mas não era a realidade no momento. Além da dificuldade no transporte havia uma grande indústria brasileira para proteger, então muitos materiais que deveriam ser importados de outros países cederam lugar para produtos nacionais.
A relação de Brasília com Niemeyer é uma relação extremamente íntima, o arquiteto foi uma peça fundamental para a criação da morfologia da capital federal, os acontecimentos internos explicam muito da realidade do nosso país e das características que fazem parte de Brasília. Mais sobre essa relação estará presente no próximo artigo da série.
Fotos: Vista Aérea, Catedral de Brasília e Juscelino são fotos de Bettmann via CORBIS.
Marcos Lula (@marcos_lula), 18 anos, cursa o segundo ano do curso de Arquitetura na PUC-Goiás. Mantém um blog sobre arquitetura, clique aqui para acessar.
Tags:50 anos, brasília, construção, marcos lula, Niemeyer
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